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Sábado, Fevereiro 25, 2006
.:: provocações filosóficas
NO REINO DE MOMO
 Imagem publicada aqui.
A audácia da exposição no carnaval tem sido alvo de pressões de religiosos e moralistas nos últimos tempos. Arvorados pelos excessos desses dias momescos trazem à tona discussão sobre o obsceno. Enquanto os que gostam caem na gandaia da preia-mar da sensualidade, outros buscam alternativas à folia, fugindo do espetáculo (?) das belas bundas e da androgenia caricata (ou não). Estes, ao final do retiro, suspiram em júbilo pelo fim do que julgam o prefácio do Armagedon.
Por obra da mídia (aqui considerado o conjunto de veículos), o festival de imagens que mostram a televisão e as revistas alimenta tal debate. Questão importante neste fórum é a intenção de censura que se coloca ao que supostamente é dito como atentado à moral. Na defesa as linhas de argumentos se multiplicam. Incluem a exposição e a festa em si como manifestação artística e outros replicam que imoral é a miséria do povo, indecorosa é a fome, indignos são o salário e a mordida tributária.
Quem se arvora em opinar sobre o assunto precisa lembrar sua amplitude e daí abrir o cadeado da responsabilidade, pois o obsceno é uma ladeira por onde também rolam as idéias de escândalo, vergonha, pecado, lascívia, indecoro, libidinagem, atitudes não só próprias dos >ímpios que se reúnem na tal roda dos escarnecedores, para lembrar do salmista Davi, mas também de muita gente grossa que se equilibra no vértice da pirâmide social amparada por alguma alegoria de pureza. Mas a culpa? Por que não estaria conectada a este embate ardoroso? Será que o alerta feito por Jean-Jacques Rousseau no Emílio, quando diz que quem cora já está culpado; a verdadeira inocência não tem vergonha de nada, não foi bem assimilado?
Vale lembrar que a preocupação com o obsceno caminha junto com as épocas. Alguém assistiu Calígula? Houve o tempo das exibições de Josephine Baker, da língua e dos lábios de Mick Jagger, da expressão corporal na presença de palco de Presley, o Rei do Rock. Muitos jogaram as composições de Raulzito no lixo junto com a foto da Wanderléa de saia curta. Há quem abomine os filmes de Passolini, deteste as letras de rap. Outros gostam de ver a nudez telenovelesca e até pagam para acompanhar toda exposição dos Big Brother da Rede Globo. Neste caso, às vezes, a exposição do pensamento é mais ridícula do que supostamente, para alguns, seja a bunda.
A proibição da manifestação popular, principalmente quando está vinculada às suas raízes culturais, é um ato de exceção. É preciso dissociar a moral da hipocrisia. Entendo que "liberdade de pensamento é dádiva da Criação e liberdade de expressão é conquista do homem". Cada um se expressa com o melhor instrumento que dispõe.
Nada é absoluto, tudo é relativo. O conceito de imoral não é óbice desta afirmativa. O obsceno está dentro de cada um, em medida coerente com seu tempo e sua capacidade de refletir, particular já comprovado como sujeito de evolução. Neste campo há muito a se projetar. Se Julio II vivesse nossa época a pintura da Capela Sistina teria lhe causado espanto? E que dizer da imposta punição a Galileu, objeto da sua suposta "loucura"? Há maior incoerência do que a acusação de escândalo atribuída a Jesus Cristo? A sociedade de outros tempos não resistiria às tolerâncias da psicologia atual e não aplaudiria, por exemplo, como em alguns países, a oficialização da união gay.
A indignidade que provoca involução no discurso e na prática, assim como próprio dos partidos políticos e suas recorrentes "adaptações ideológicas à realidade das suas ganâncias", me parece uma obscenidade maior do que um corpo nu desfilando pintado na avenida. Enquanto aquela causa uma lesão no organismo social, este é apenas um objeto de admiração e prazer (se não de outros, mas pelo menos de quem o exibe).
Independente de qual lado estejamos o essencial é contribuir para debate mais interessante. Qual seria o limite do lícito e do descente na literatura, na arte, na liberdade de expressão, na religião? Em se tratando de liberdades é conveniente lembrar das suas estreitas ligações com a permissividade, o direito, a independência, a imunidade, aspectos jamais dispensáveis do conceito de livre-arbítrio.
O livro "Não Espere Pelo Epitáfio" (Editora Vozes, 2005) do professor Mario Sergio Cortella (filósofo, com mestrado e doutorado pela PUC-São Paulo), apresenta um saboroso texto sobre este tema - Um Passeio pelo Obsceno - que termina com uma citação que me permito registrar: Stendhal conta que uma princesa, ao comer voluptuosamente um sorvete numa noite muito quente, disse: Que pena não ser pecado!
E os poetas? Ah os poetas! Só eles sabem o que é pecado. Olavo Bilac que o diga.
Delírio
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
-- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
-- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
-- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Por Ery Roberto |
9:59 PM
Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006
.:: música
MATANDO UMA SAUDADE IMENSA DE TEMPOS MÁGICOS
Nada neste mundo consegue me transformar e reconstruir dentro das minhas lembranças os momentos mais importantes e bem vividos do que a música. Para cada época, uma situação especial, como num frame, surge a identidade de um tempo mágico e que se resume através do som de uma canção. E só ela é capaz de trazer uma incandescência ao cerne nervoso da memória e me fazer vibrar intensamente.
São muitas as músicas da trilha sonora da minha história. Dentre elas estão Blue Moon, principalmente porque foi o que ouvia quando fui apresentado para minha filha e me faz verter lágrimas até hoje - fato que já contei aqui e que me fez escrever uma poesia - e também Can't Take My Eyes off You porque fazia parte da cartilha que adotei quando aprendi a dançar. Um tempo de paixões efervecentes.
Agora esta mesma filha, que me bordou na memória uma das mais lindas canções que existe, me ajudou a redescobrir "Can't Take My Eyes off You" em gravações de Andy Willians, Diana Ross & The Supremes, Frankie Vallie, Barry White, Lauren Hill, Tina Charles, Sheena Easton, além da Glória Gaynor, do Save Ferris, Ray Conniff e dos Boys Town Gang que eu já conhecia.
Ainda volto a falar desta maravilha escrevendo um post especial. Por hora vou terminar de ouvir o CD que ela me deu de presente e também porque quando me "arrepio" perco os movimentos das mãos e preciso fechar os olhos. I need you baby. I love you baby! Bom fim de semana.
[Tânia Macei, onde estás deve ter uma "Lua Radiante". Duvido que tu ainda não tenhas chorado ao ouvires certo ritmo por aí, bem na terra própria, depois de tanto tempo de espera. Eu maldoso? Ahhhh!! Falando em maldade, se olhares bem pra esta íris aí em cima, e se tiveres tempo pra pensar, lógico, lerás uma "mensagem cifrada". Vale ajuda do portuga... Saudades, pois pois.]
Por Ery Roberto |
5:49 PM
Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
.:: filhos
LEVANTANDO AS ÂNCORAS
| "É preciso não esquecer de ver a nova borboleta nem o céu de sempre".
[Cecília Meireles, in É Preciso Não Esquecer Nada] |
Em certas situações esquecem os pais da fundamental necessidade de "cortar as amarras" com relação aos filhos. Existe uma analogia interessante para este particular apego que se desenvolve: os filhos são como navios. Assim, embora pareça que um porto é o lugar mais seguro, na verdade navios foram feitos para o mar. Navegar é preciso.
No poema da inesquecível Cecília, os versos "O que é preciso é ser como se já não fôssemos, / vigiados pelos próprios olhos / severos conosco, pois o resto não nos pertence", parecem nos dar o melhor conselho.
Esta sensação de rompimento, o "ser como se já não fôssemos", representa em última análise o definitivo reconhecimento da individualidade alheia. Como porto seguro, o ato de ajudarmos no levantamento das âncoras não deve significar nunca uma separação, mas principalmente a certeza que, devidamente carregado de todas as marcas que levamos tanto tempo para embarcar, nossos filhos devem continuar sozinhos a sua grande viagem, singrando os mares da existência.
Chega um tempo que é preciso ter coragem para entender que o excesso de cuidados passa a ser cerceamento da liberdade. É preciso entender a natureza, e neste particular, contar com a confiança que possa ter sido transmitida durante todo o período de formação do caráter. As águias, em momento propício, empurram seus filhotes para fora do ninho provando-lhes a exuberante sensação que foram feitos para voar. E lá se vão, e com isto acabam reconhecendo o magnífico poder das asas e dos seus olhos.
A beleza da borboleta é maior no trepidante movimento das suas asas.
No mar, em alguns momentos, virão do céu as tempestades e os navios haverão de enfrentá-las e vencê-las por sua conta. É a sina, é o destino. Só encarando desafios se concretizará a possibilidade da experiência. Toda viagem tem um custo. E para muitos filhos, os bons filhos, ela já foi quase paga.
Ninguém há de querer que sejam eternamente um barco jamais navegado, sem nunca ter mostrado seus porões, nunca se arriscando aos ventos, nunca cruzando com piratas e aventureiros, nunca cumprindo o destino das embarcações.[1]
Ou para sempre crisálidas.
[1] - Velas - Ivan Lins / Vitor Martins.
Dedico este texto à Thereza da Praia, que conta em seu post de 12.02.06 as dores de uma decisão.
Por Ery Roberto |
4:11 PM
Sábado, Fevereiro 11, 2006
.::caricaturas & esculturas
MATERIALIZANDO O TRAÇO

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O escultor mineiro Wellington Fernandes resolveu homenagear o caricaturista Lanfranco Vaselli, o Lan. Este italiano, formado no Chile, iniciado na imprensa argentina, quando mudou-se para o Brasil foi morar em São Paulo. Mesmo assim é considerado o mais carioca dos caricaturistas - ninguém desenha mulatas melhor do que ele. A exposição que mostra as belas esculturas saídas das mãos de Fernandes está na Casa França-Brasil, no Rio.
No Mínimo dá uma canja desta belíssima dupla. Vale a pena ver, pois é a materialização do traço, um casamento perfeito em pura obra de arte. |
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Por Ery Roberto |
3:44 AM
Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
.:: cidades
O BANHO DO HOMEM NU
 A história não está escrita apenas em livros e nos documentos preservados que se guardam nos museus. Através da arte nos monumentos esta história se complementa e se torna viva para a memória dos cidadãos, contribuindo para que sucessivas gerações entendam os fatos e criem respeito por personagens marcantes que ajudaram a construí-la.
O atentado da marginalidade aos patrimônios públicos é um crime contra a história e depreciação do respeitável trabalho artístico que tanto contribuiu para a construção cultural. A pichação, essa obra doentia da mente delinqüente, é atitude análoga a rasgar uma folha do livro da história ou de macular um documento importante.
Em Curitiba é possível aprender muito através dos diversos monumentos. Cada obra de arte, como uma construção colonial, um objeto típico do passado ou escultura, representa uma peça magnífica do painel que exemplifica o texto histórico, ilustrando características étnicas, revoluções, personagens e momentos importantes da vida da cidade e do estado. Quando esse conjunto simbólico é agredido significa a tentativa de passar uma borracha na memória.
Nas imediações do Centro Histórico, no antigo Largo do Nogueira, está localizada a Praça 19 de Dezembro. O logradouro lembra a emancipação política do Paraná. Ali se encontram dois painéis: um de granito, de Erbo Stenzel [1], em alto relevo, representando os ciclos econômicos do estado; outro de azulejos, obra de Poty Lazzarotto [2], representando a nossa evolução política. Além dessas obras, há dois obeliscos: o Homem Nu, também de Stenzel, que representa o Paraná emancipado, sem medo, de corpo aberto para o futuro e a Mulher Nua [3], do paulista Humberto Cozzo [4], que originalmente ficava nos fundos do Palácio Iguaçu, trazido à Praça a fim de complementar o conjunto e representar a Justiça.
A Praça 19, um palco que tem como cenário de fundo a beleza verde do Passeio Público, conhecido cartão postal de Curitiba, finalmente - como toda região central - vai receber a atenção do poder público. Os painéis e obeliscos estão sendo recuperados através de lavagem especial para remover as pichações [5] e o local foi incluído no projeto que prevê uma série de intervenções no centro da cidade e seu entorno. Esta operação tem também o apoio da Associação dos Restauradores e Conservadores dos Bens Culturais e da Fundação Cultural da cidade, parceiros do Programa Marco Zero da Prefeitura Municipal.
Iniciativas assim merecem aplauso, mas é preciso lembrar que são necessárias ações complementares. Qualquer projeto de revitalização passa obrigatoriamente pelo trabalho da segurança pública, pois do contrário o investimento do erário terá sido em vão. É preciso obter o empenho do aparato policial preventivo, que por óbvio servirá também para dar maior tranqüilidade aos cidadãos nesses locais onde, em conseqüência do abandono, acampam corjas marginais que se preservam impunes e crescem na velocidade da reprodução das baratas e dos ratos nos fétidos becos onde tranqüilamente se comercializam drogas.
Para quem não conhece Curitiba, a Praça 19 de Dezembro marca geograficamente o início da Avenida Cândido de Abreu, dupla via que leva ao Centro Cívico - sede dos governos Municipal e Estadual (Palácio Iguaçu) - e onde se localizam importante comércio, estabelecimentos de ensino, fórum cível, escritórios, rede bancária, Museu Oscar Niemayer, abrindo percurso através da área central para um dos bairros nobres da capital paranaense.
A Praça 19 é um cartão de visitas que se redesenha com toda modernidade e respeito que merece.
[1] - Nascido em Paranaguá, Erbo Stenzel, professor, enxadrista e escultor, deixou importantes obras em Curitiba. Sua antiga casa é, hoje, um espaço cultural no Parque São Lourenço.
[2] - Napoleon Potyguara Lazzarotto, o Poty, pintor e ilustrador curitibano, estudou em Paris e deu aulas na Bahia, Recife e Curitiba. Ilustrou livros de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Euclides da Cunha e Machado de Assis. Autor de inúmeros murais, como o da Casa do Brasil (Paris - 1950) e o painel para o Memorial da América Latina (São Paulo - 1988).
[3] - Certa corrente explica que o monumento da Mulher Nua ficou durante muito tempo "escondido" atrás do Palácio Iguaçu por circunstância do temperamento ortodoxo do povo curitibano.
[4] - Humberto Cozzo, paulistano, nascido Bartolomeu Cozzo, escultor formado pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo em 1920, foi primeiro lugar de escultura no Salão do Centenário, em São Paulo (1922). Conhecido pelas obras em espaços públicos, fez o monumento a José de Alencar (Fortaleza) e o monumento a Machado de Assis, no pátio da Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro). Tem também obras na Argentina e Portugal.
[5] - A técnica utilizada para lavagem dos monumentos foi trazida dos EUA por um voluntário que foi convidado a compor a equipe operacional. Inclui produtos degradáveis que produzem menor agressão aos materiais.
Dados históricos do jornal Tribuna do Paraná. [UPDATE | 09.Fev.2006 - 15h58]
E falando em segurança nas metrópoles, vejam esta: "A cidade de São Paulo tem hoje cerca de 6.000 guardas-civis. A principal missão deles é preservar os bens públicos e auxiliar o policiamento junto a escolas municipais. Mas é lamentável que dentro dessa corporação aconteça um fato como este. Veja [+].
Por Ery Roberto |
9:16 PM
.:: oscar wilde
PREENCHES O PERFIL?
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scolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim "louco e santo".
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
Colaboração: Denise Vasconcellos |
| [UPDATE | 11.Fev.2006 - 00h19]
"Amizades nunca têm pontos.... quando muito, uma vírgula!" [Denise | 10-02-2006 14:28:36].
Fantático! Eu gostaria de ter escrito isto.
Por Ery Roberto |
12:40 AM
Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006
.:: fenômeno editorial
A GAROTA DO BLOG
 [Montagem fotográfica produzida a partir de imagens capturadas nos sites de Bruna Surfistinha, Folha/UOL e Revista Época]
Quem acompanha rádio, TV, jornais, novidades literárias e principalmente navega na rede já ouviu falar de Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha. Para quem ainda não se ligou, esta garota de 21 anos, classe média paulistana, filha adotiva, antes estudante de bons colégios de São Paulo, freqüentadora de academia, curso de inglês, shopping aos finais de semana etc, hoje é uma ex-garota de programa, autora do livro "O Doce Veneno do Escorpião", obra que atingiu a segunda colocação na lista dos mais vendidos (80 mil exemplares, segundo a Editora Panda Books) e ganhou status de best-seller.
O objetivo do meu texto não é tratar da prostituição em si. Desde que acompanho as notícias, senti vontade de expor certa preocupação com este fenômeno social. O exemplo de Lollita Pille, a adolescente rica francesa que contou sua vida de compras, drogas e orgias de maneira crua no livro Hell, não foi o que motivou Raquel a escrever seu livro. Tudo que já foi dito a respeito da sua vida aponta para pistas já conhecidas da psicologia em sua área de análise comportamental no que diz respeito ao desenvolvimento educacional e da cidadania.
Além da genética, o ambiente influencia o comportamento. O que é genético depende do ambiente para se desenvolver, pois é este que proporciona toda a aprendizagem do indivíduo. O ambiente familiar vivido por Bruna, segundo o que se lê em alguns relatos, marcado por sucessivas brigas, teria sido o trampolim para o mergulho ao mundo das drogas e suas conseqüências mais imediatas - o roubo dentro de casa e a prostituição.
Desde que passou a publicar em seu blog relatos dos programas que fazia, alcançou audiência record e começou a ser assediada por diversas mídias.
Em 2005, depois de anunciar que havia se aposentado da lida de garota de programa, Surfistinha foi ao Programa do Jô (Rede Globo) e passou a cumprir inúmeras entrevistas e receber convites para atuar em campanhas de publicidade, lançar produtos e até ter sua vida tratada em filme.
Só no mês de janeiro ela foi assunto no Jornal do Brasil, esteve em programas como Ciro Guerreiro (Gazeta), Garagem (Rádio UOL), Rádio Capital (AM) e já apareceu nas revistas VIP, Criativa, Viva Mais!, Brando (que circula em Miami, Buenos Aires e na Colômbia) e na Época, de 30.01.06, com reportagem de capa, além de ter virado verbete da Wikipédia.
A reportagem da revista Época sugere certos questionamentos. A prostituição se elitizou e se ampliou, é a primeira premissa.
Por outro lado, estatísticas mostram comparações de ganhos com outras atividades tradicionais, considerando parâmetros notáveis como idade, formação acadêmica, investimento e tempo de serviço, culminando com a conclusiva de faturamento muito significativo, obviamente presentes outros aspectos do campo pragmático da prostituição contemporânea, como a troca de sexo por luxo e riqueza e quiçá a potenciação absoluta da fama (?). Outro aspecto é a demanda. Como se sabe, além de São Paulo, também Brasília é um mercado promissor. É preciso, também, considerar o agente. O ramo está cheio de investidores. Como na corrupção, há sempre um componente que incentiva a perversão.
Todavia, Bruna foi inovadora. Além da estrutura faraônica in house que é oferecida pelos bordéis de luxo, ela usou em benefício próprio o ferramental da internet através de um bem elaborado site (antes do blog). Expor publicamente foi a alavanca do negócio, assim como as cortesãs de Roma que faziam da entrada dos prostíbulos a sua vitrine. Eis o mais claro significado do verbo latino prostituere, origem do nosso "prostituir". Se o mote era aparecer, Bruna Surfistinha usou com reconhecida competência na rede nos mais de três anos em que se dedicou aos programas. Foi esperta até no "pós-venda" ao fazer dos seus relatos posteriores, publicados no blog, a surpreendente revelação da intimidade. A dela e dos clientes, prática que pode ser chamada de "marketing da fantasia e do tesão".
O fenômeno Surfistinha serviu para abrir nova discussão sobre a rigidez da moralidade. Refiro-me não a qualquer ato de exacerbar princípios, mas sim quanto à importância de reconstituir o diálogo. Precisamos rasgar esse véu que, de forma indigna, vimos utilizando para esconder a hipocrisia. Demonstrar amor, desde o tempo certo, e principalmente pelo que o filho é e nunca pelo que ele faz, é uma síntese de intenções para o amadurecimento do ato de educar. A melhor forma é aprender a descrever os comportamentos dos filhos e também os nossos próprios. Há que se rever pudores e pensar no contato físico, na necessidade das palavras, na qualidade do tempo que se passa junto, no presentear, na definição dos limites e numa atitude de serviço. É perceptível que tais atos são veredas fundamentais para que os filhos entendam que são amados.
A pergunta que não quer calar: "Bruna conseguirá realmente abandonar a prostituição?" Evidente que não é simples mudar um status de vida repleto de luxo e das mordomias custeadas por ganho de ordem ímpar - acima dos vinte mil reais no mês. A maior dificuldade revelada nessas situações é o processo de readaptação à outra atividade com salário muito menor - o que é a normalidade -, mas o que esta garota conseguiu deve ajudar. Se souber tirar proveito da sede da mídia (terá que nomear um empresário-pai), concluir a formação (pelo que demonstrou na entrevista no Programa do Jô, ainda é muito crua) e receber orientação honesta terá plena possibilidade de começar a "escrever uma outra história".
As tintas são reais. Divulga-se a inauguração, em breve, de um portal onde deverá lançar produtos de higiene com griffe própria (Portal do Banho, site ainda em construção). Além disto, seu livro deverá ser publicado em Portugal e na Espanha.
Para quem há quatro anos embarcava em canoa furada, tudo que vem acontecendo e que se projeta é mais que um belo iate. Caberá à própria parar de surfar e aprender a navegar.
Você atiraria a primeira pedra?
Cabe analisar a questão sob outros ângulos e lembrar que existem formas análogas. Ou certos casamentos de modelos que duram apenas algumas semanas e que depois se configuram em golpe de autopromoção não seriam mais uma tentativa de se "trocar" pelo vil metal? Seria a prostituição branca? E outras situações onde fatores que garantem o enrustimento surgindo como aposta contumaz para garantia de um nível de vida "tranqüilo"? Há, também, a justa similaridade que deve ser aplicada quanto às demais "diversidades" no âmbito das preferências sexuais e o respectivo direito à liberdade. Ou não? Ser garota de programa de luxo é uma escolha íntima e que, por conseguinte, ao ser considerado como uma prerrogativa do livre arbítrio, não deveria impedir a pessoa de conviver honestamente nos ambientes formais. Ademais, desde os remotos tempos da civilização, em paralelo aos meandros da sexualidade, a prostituição está registrada como prática que a revolução dos costumes jamais conseguiu extinguir.
Enquanto isso tem gente que gosta de carregar os feixes de lenha para manter a labareda: "Eu a conheço pessoalmente, já fiz e estive com ela no flat e sei que ela ainda faz programas, mas cobra bem mais caro que antes". - Ricardo Barket - São Paulo - 16/11/2005 ~ 14h58min, in comments de matéria da Revista Paradoxo.
Sem menosprezo à Srta. Raquel, na certeza de que escrevi com total isenção, em reservado, como se intrigante Nota fosse, cabe-me registrar a tendência das mídias em explorar de forma agressiva - no conceito ousadia - toda e qualquer oportunidade comercial, mesmo que intrinsecamente esta se traduza por algo que a maioria reputa como novo púlpito para a pregação do conjunto moralista, justo por provir de ação que a sociedade repudia.
Lembro ter descoberto na rede, e trazido aqui em post no ano passado, o magnífico talento artístico da garota Bárbara Vieira. Com ela conversei pelo MSN e soube do seu encantado sonho de gravar um disco. Que mesmo já tendo mostrado regionalmente seu fabuloso potencial, ganho prêmios, continua escalando, há anos, os muros que separam a realidade nua da chance engalanada. Assim como ela existe por este país afora outras tantas que inconscientemente sepultam a genialidade por falta de apoio.
As mídias sofrem da pior cegueira. Daquela que é própria de quem não quer ver.
Por Ery Roberto |
11:03 PM
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
.:: mal traçadas linhas
 Imagem: 1000imagens
Este meu ato de reverência ao admirar teu corpo é um silencioso desejo de adentrar em teu átrio. Se disserem que profano o templo te amando, é porque jamais conheceram os milagres que provêm do entrelaço na solenidade do teu abraço e no suor-batismo da tua pele, na plenitude do acolhimento. É natural a idéia de devoção quando em teu seio me recebes feito pecador em confissão. E se me conservo único fiel à doutrina do teu encanto, é porque cumpres o rito-jura de não converteres mais ninguém. Meu cântico é teu prazer e nossos sonhos não têm cópias distribuídas. Se eu pecar por outras obras, já não serás mais tu a me absolveres...
[TEU CORPO - Ery Roberto Corrêa]
[UPDATE - 02.Fev.2006 - 23h49]
"... A literatura tem dessas coisas, mistura o sonho às demandas da pele. Redime, quando o amor, de tão delicado e cósmico, se sente quase culpado pela força contextual de seus desejos mortais. E assim transformamos o prazer em sonho e poesia, em detrimento dos influxos carnais".
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Por Ery Roberto |
1:05 AM
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